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Tempos difíceis: a vida de uma imigrante do pós-guerra na Europa

  • Foto do escritor: Luísa Olímpia
    Luísa Olímpia
  • 2 de jan.
  • 16 min de leitura

Só consegui voltar ao meu querido lugar onde nasci depois de 42 anos de Brasil. Ainda quando chego a Portugal, me chamam de brasileira. Não me sinto confortável, pois não nego minhas raízes: nasci portuguesa, embora ame muito o Brasil.

Meu nome é Julieta e moro no estado de São Paulo desde 1957.

 

Entre 1955 e 1959, mais de 170 mil europeus chegaram ao Brasil para reconstruir suas vidas, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Dentre esses imigrantes, quase 97 mil vieram de Portugal em direção ao porto de Santos, em São Paulo, ponto de partida para diversas cidades do Brasil. Julieta da Encarnação da Silva, de 84 anos, é uma entre essas milhares de pessoas.

 

Infância em Portugal

 

A pequena Julieta nasceu na casa de seus pais, Maria de Jesus da Silva e António Gonçalves dos Santos Júnior, em 14 de abril de 1941, no povoado chamado de Segunda Lombada, pertencente à cidade de Ponta Delgada, na Ilha da Madeira, em Portugal. Nasceu pelas mãos de sua avó paterna, Antonia da Encarnação Fernandez, à luz de velas, ou, quem sabe, à luz de petróleo, o chamado lampião da época.

 

Foi a primeira entre os nove filhos do casal. Em seguida, nasceram Alegria, Aldora, Jacinto, João, Crispim e Fernanda. Alguns nomes, vistos como incomuns, são decorrentes da ideia do pai em nomear os filhos de forma a não serem confundidos com outras pessoas homônimas.  

 

Todos moravam em uma pequena casa de pedra. Em cima, dois quartos; embaixo, a loja, cômodo destinado ao abrigo de mantimentos, não à sua venda. Anos mais tarde, o pai sondara o preço do terreno nos fundos da casa, para que pudessem cultivar alguns alimentos para consumo próprio. O tio da mãe de Julieta, João da Silva, ao saber disso, comprou o local para presentear a família. O patriarca, por sua vez, não viu de bom grado: analfabeto, se sentiu humilhado.

 

Casa onde Julieta cresceu, na Segunda Lombada.  Na foto, dois de seus filhos em visita ao local.

 

Assim como não havia luz elétrica, não havia água. Para consumo próprio, a família recorria ao chafariz, próximo à residência. Para lavar roupas, era mais complicado: precisavam andar até a ribeira, que não era perto.

 

No final da Segunda Grande Guerra (1939-1945), os velórios eram comuns. Principalmente de crianças, que não suportavam a fome que acometia a população. Com os portos fechados, não havia comida. Quase todos os dias, um cortejo fúnebre passava na porta da casa de Julieta. Certa vez, em 1944, o padre comentou que, no dia seguinte, já haveria outro funeral. Naquele mesmo dia, morreu seu irmão Jacinto, com apenas alguns meses de vida. Pouco tempo depois, morreu Aldora, aos 2 anos de idade. O tio, João, construiu o caixão de cada uma das crianças, que foram decorados com folhas de avenca com todo cuidado.

 

Com a cozinha construída sob um pé de nogueira, a avó materna de Julieta, Maria dos Martírios Figueira, gostava de receber os netos com batatas cozidas, ainda com casca. Não raro, porém, estava com manchas roxas pelo corpo nestes encontros. Quando questionada, dizia, com uma lágrima caindo pelo rosto, que tinha caído. Todos sabiam que se tratava da violência de seu segundo marido, padrasto da mãe de Julieta, que chegou a ser preso por duas vezes, mas não por violência doméstica. “Ah, minha neta... Deixa isso para lá!”, dizia sua avó, mudando de assunto.

 

Certa noite, Julieta observava o pai que conversava com um amigo na cozinha de casa. Obedecendo ao pedido paterno, a menina retirou os pratos, ainda oleosos de azeite, da mesa. Ou, pelo menos, tentou. Sem querer, um dos únicos dois pratos da casa, espatifou-se no chão sem que Julieta pudesse impedir. Antes que os cacos terminassem de preencher cada centímetro do cômodo, um choro copioso já se instalava no ambiente. “Por que choras, se nem brigar contigo, eu briguei?”, perguntou o pai. “Tu não brigaste, mas a mãe vai...”, diz a menina, entre lágrimas. Depois de um breve momento, o homem decide: “Pode deixar que eu vou assumir a culpa: vou dizer que eu quebrei o prato.”. E assim fizeram. Já deitada para dormir, Julieta apenas ouviu a mãe esbravejando furiosa contra o pai.

 

Criança, Julieta teve dois problemas de saúde: labirintite e infecção estomacal. Em ambas as ocasiões, foi seu pai quem procurou ajuda. Naquela época, os médicos atendiam de sua própria casa, sendo costume pagar a consulta mais tarde, quando não se tinha condições no momento. Nas costas do pai, Julieta, com labirintite, via o mundo girar. Gritava, assustada, que iria cair. O pai afirmava que estava segurando firme a filha. A menina não chegou a cair, mas, tempos depois, veio a segunda enfermidade. Com infecção de estômago, Julieta precisava tomar, chorando, óleo de fígado de bacalhau.

 

Assim como as outras crianças da região, Julieta andava descalça. Ganhou seu primeiro sapato aos oito anos, que seu pai mandara fazer. A alegria, no entanto, duraria pouco. Aconteceu que a menina fora com uma prima pegar capim para o gado. Como de costume, precisavam atravessar a ribeira, mas, não tendo costume de andar calçada, esqueceu-se de tirar os sapatos para que não molhassem. “Tudo bem”, disse a prima, quando voltaram para casa, “coloco para secar aqui perto do fogo”. Sem que as duas percebessem, os sapatinhos derreteram. Julieta teve, portanto, que participar de sua crisma descalça, além de passar a frequentar a escola sem sapatos.

 

Em outra ocasião, ainda buscando capim para o gado, mas, dessa vez, com uma tia muito querida, Maria Olímpia dos Santos, irmã de seu pai, Julieta estava cortando um bordão (suporte de madeira para transportar o capim) quando viu o sangue escorrer de sua mão. Sufocando um grito, viu que acabou cortando o dedo mindinho com a foice. A tia veio de imediato ao seu encontro, rasgando um pedaço de tecido de sua roupa para estancar o ferimento. Quando chegou mais perto, as duas viram que não se travava apenas de um corte: já podiam ver o osso do dedo aparecer. No entanto, nada podia ser feito, restava apenas esperar o tempo cicatrizar.

 

Com essa mesma tia, Julieta, aos sete ou oito anos, aprendeu a bordar. Em troca de linhas, pegava capim. Os trabalhos eram enviados para a casa dos bordados, de onde eram vendidos. Quando houve a necessidade de fazer bordados mais elaborados, uma vizinha ensinou tal arte. Aos domingos, Julieta e a tia saíam rumo à missa ainda pela madrugada. Para chegar à igreja, que era distante do local onde moravam, a menina dava o braço para a tia e dormia enquanto andava.

 

Julieta bordando em sua casa, em Santos – SP.

 

Julieta mostra seus bordados. Em sua maioria, caminhos de mesa.

 

O sonho de começar na escola teve que esperar até os oito anos de idade. O primeiro problema era a distância: como a escola ficava muito longe, foi preciso esperar até que sua localidade tivesse sua própria instituição de ensino. O segundo problema era sua mãe, que não queria que a filha frequentasse a escola. Os quatro anos de estudos que se seguiram mesclaram momentos felizes e não tão felizes.

 

A escola ofertava do 1º até o 4º ano, em período integral – das 9 horas até 12 horas e das 13 horas até 17 horas, com 15 minutos de intervalo. A Professora Celeste foi a responsável pelos dois primeiros anos. Nessa época, as crianças frequentavam a escola aos sábados para fazer a limpeza do local. Pelo menos era o que a mãe de Julieta pensava. Na verdade, além de faxinar, as crianças brincavam de roda, aprendiam crochê, rezavam e cantavam o hino nacional, sempre acompanhados da professora. Numa manhã, enquanto se divertia com suas três colegas de classe, os meninos, que jogavam bola, avisaram que sua mãe estava chegando. Às pressas, as meninas e a professora guardaram os bordados e pegaram os livros. Assim, com a ajuda de todos, Julieta escapou do castigo.

 

Porém não por muito tempo. Como medida protetiva de piolhos, todos cortaram os cabelos na escola. Antes com os cabelos na cintura, quando chegou em casa, não passavam da altura dos ombros. Revoltada ao ver a filha, a mãe não pensou duas vezes: viu uma corda por perto e bateu na menina. No outro dia, a situação chegou aos ouvidos da Professora Celeste, que chorou ao ver as marcas que o avental da escola escondia.

 

No almoço, acompanhada da irmã Alegria, que era apenas um ano mais nova, Julieta andava até sua casa, para que pudessem fazer um lanche. Porém, apenas uma hora não era tempo suficiente para o deslocamento e preparo da refeição. Muitas vezes, era preciso voltar à escola ainda com fome. Por sorte, a avó Antonia morava perto da escola e as duas podiam fazer um breve lanche de tarde.

 

No 3º ano, chegou uma nova professora: Florinda. Temida por todos com sua fama de brava, os alunos arquitetaram um plano de jogá-la pela janela para se protegerem. Dias depois, em nova reunião, decidiram cancelar. Julieta não participou da ideia, mas, talvez, pudesse ter se beneficiado com ela. Depois disso, em uma aula, a estudante, sentindo calor, soprou as mãos para resfriá-las e, sem querer, produziu um assobio. “Quem fez isso?!”, perguntou a professora. Todos ficaram quietos, mas, com a ameaça de que toda a sala seria punida, um colega a dedurou. Um, dois, três, quatro, cinco. Depois, de novo: um, dois, três, quatro, cinco. Um a um, Julieta recebeu dez bolos nas mãos de palmatória.

 

Quando chegou ao 4º ano, Julieta era só alegria: chorou de felicidade ao pegar seu livro. Chegar até o último ano, alfabetizada, era motivo de puro orgulho para a menina que completou os 12 anos. Com a Professora Celeste de volta, se dedicava aos estudos todos os dias sob os protestos da mãe, que dizia que três anos de escola já tinham sido demais. O pai, por outro lado, sabia da importância de ter uma filha letrada, a única da família a saber ler e escrever. Mesmo frequentando a escola com a irmã, Alegria não aprendeu a ler, apenas decorou a cartilha, sem conseguir passar do 1º ano.

 

A bordo do Vera Cruz

 

Em 1953, António, o pai de Julieta, decidiu partir para o Brasil. Para ele, sair de Portugal era sinônimo de proporcionar uma vida melhor para os filhos, com oportunidade de estudos. A primeira ideia, na verdade, era se mudarem para Funchal, mas a mãe de Julieta dizia: “Daqui, só saio se for para fora do país!”. Coincidiu que o padrinho de Julieta, Manoel Aires, havia vindo para o Brasil há pouco tempo, para trabalhar na indústria, e chamou António.

 

Documento de imigração do pai de Julieta, António Gonçalvez dos Santos Júnior.

 

Nessa época, a mãe de Julieta estava grávida de Fernanda, a sétima filha do casal. Recém terminado a escola, a menina de 12 anos era responsável por cuidar dos irmãos mais novos, João e Crispim, além de trabalhar nas terras com a mãe. Sempre com um bebê nos braços, Julieta chorava junto com a criança com medo de caírem os dois ladeira abaixo.

 

Mesmo distante, o pai se fazia presente por cartas. Julieta lia as palavras para a mãe, que não sabia escrever o próprio nome. Nessas cartas, o pai perguntava das filhas e pedia que a mãe não batesse nelas. Depois, a menina escrevia a resposta. Assim, se passaram três anos.

 

Entre 1955 e 1956, a mãe de Julieta decidiu que o restante da família iria para o Brasil. O processo de migração não era simples, com duas maneiras de sair de Portugal: a primeira, por convocação do governo brasileiro (que escolhia as famílias com maior número de filhos); a segunda, com o envio de carta por uma pessoa já instalada no Brasil solicitando a vinda de uma família. Essa última foi a forma como todos conseguiram mudar de país.

 

Após o envio da carta, começou-se os preparativos, tanto de documentação, como de aspectos práticos. Foi preciso vender as terras para que pudessem guardar uma quantia para começar a vida no Brasil. No entanto, sem ter terras para produzir alimento, a família começou a passar fome. Além disso, precisaram deixar a casa e se separaram: Julieta foi para a casa da Professora Celeste, Alegria, para a casa de sua madrinha, e as crianças ficaram com a mãe na casa da avó paterna.

 

Na casa da professora, a menina dormia na cozinha, em uma cadeira aberta. Com o frio do inverno, as cobertas não eram suficientes para esquentar durante a noite. Próximo a partida, os irmãos, a mãe e a tia vieram ao encontro de Julieta, em Funchal. No dia da viagem, João, um dos irmãos, com oito anos, sumiu. Procurando o menino por horas, quase não conseguiram embarcar. Ninguém soube como o menino se perdeu, apenas que foi encontrado pela guarda e reencontrou a família.

 

Página do passaporte de Julieta.

 

Em 18 de janeiro de 1957, Julieta embarcou no navio Vera Cruz, o mais novo e moderno de Portugal, junto com sua mãe, sua tia Maria Olímpia e seus quatro irmãos. Saindo de Funchal, a viagem durou 11 dias, com parada em Cabo Verde, Salvador e Rio de Janeiro até chegar ao Porto de Santos.

 

O primo do pai de Julieta trabalhava na capitania dos portos e conseguiu um camarote para que fizessem a viagem com mais conforto. Viajaram, então, em um quarto com quatro camas para as sete pessoas. Caso não tivessem conseguido o camarote, teriam que viajar na parte de baixo no navio, que era um enorme salão, com vários colchões lado a lado no chão, onde iam todos juntos – homens, mulheres e crianças.

 

Apesar da fartura de comida, não conseguiam comer devido ao enjoo constante. No navio, o calor era insuportável. Com o passar dos dias, as crianças tiveram febre e a mãe de Julieta precisou ser internada na enfermaria. De dia, apenas céu e mar. De noite, deitada no chão com a irmã mais nova, Julieta sentia os minutos se arrastarem.

 

Cruzado o oceano, o navio atracou no Porto de Santos em 29 de janeiro de 1957, em um verão quente e ensolarado. Julieta, aos 15 anos de idade, teve um choque de realidade: acostumada com a natureza do lugar onde morou toda a vida, se viu no meio de uma cidade cheia de construções, sem árvores, nem felicidade. Decepcionada, precisou se controlar para não chorar.

 

Com o dinheiro da venda das terras, a família comprou um sítio no morro Pacheco, ainda sem pomar, horta ou animais. No desespero de sustentar os filhos, o pai saiu para comprar um porco, seis pintinhos e milho para os animais, mas, na volta para casa, perdeu o dinheiro que sobrara. Analfabeto, desempregado aos 50 anos, com uma família recém-chegada a um país novo e sem dinheiro algum, desistir não era uma opção. A vontade era de estudar, mas Julieta precisou ir trabalhar.

 

Nova realidade

 

Ainda sem sustento proveniente do sítio, precisaram buscar trabalho fora de casa: o pai foi trabalhar na linha de bonde da cidade, a irmã Alegria mudou-se para trabalhar como doméstica, Julieta e a mãe conseguiram um trabalho no armazém de café e a tia cuidava das crianças e da casa. Os patrões da irmã, Dona Rosalina e Seu Aristides, ofereceram trabalho para Julieta também, mas o pai disse que a menina não podia se afastar de casa, por ser a única conhecedora das letras e do dinheiro local.

 

Julieta batia o ponto às 7 horas na Rua do Comércio e trabalhava até as 17 horas, com 2 horas de almoço, possibilitando o deslocamento de meia hora a pé até a residência. Com os gritos e ameaças da mãe, a jovem separava os grãos de café, retirando aquilo que não servia. Alguns meses depois, mudou de posto e passou a costurar as sacas de café. Mesmo assim, a mãe não permitia sequer que a filha lavasse o rosto para aliviar-se do calor e do suor. Vendo o tratamento que a menina recebia, um supervisor olhou fixo para a mãe e afirmou: “Só não chamo a polícia para a senhora, porque não é homem!”.

 

Apesar de cada um ter seu trabalho, a família não desistiu de cuidar do sítio. Acordavam cedo para cuidar dos animais e da plantação. Aos finais de semana, era dedicação integral. Se, por um lado, o cuidado com a terra rendeu frutos, por outro, a vida da família passava do amargor para a tristeza.

 

Com a nova fonte de renda, quando não estava trabalhando no café, Julieta colocava uma caixa de bananas na cabeça e descia morro abaixo vendendo as frutas. Além disso, a família vendia mandioca e comercializava alguns animais. A alimentação, no entanto, ainda era restrita: só comiam queijo quando a irmã voltava para a casa aos domingos trazendo um agrado que a patroa mandara.

 

Sem saber o que estava acontecendo, Julieta passou a receber todo fim de semana a visita de um conterrâneo da Ilha da Madeira. Antonio Gomes da Silva morava na casa dos primos do pai da jovem e, como um português reconhece outro em qualquer lugar do mundo, logo os homens da região formavam uma comunidade. Mais tarde, Julieta se lembraria que se tratava daquele homem 12 anos mais velho que conhecera na varanda no sítio, próximo da chegada da família ao Brasil. Bordando com a tia, viu chegar o estranho que dizia procurar uma bezerra para comprar.

 

Sempre com sua única calça azul bebê, Antonio não tinha coragem de pedir a mão de Julieta em casamento. Até que dois pretendentes bateram à porta: um para ela, outro para Alegria. Indignado, fez sua reclamação para o pai da jovem: “Frequento a casa há tempos e nada!”. Foi o incentivo que precisava e, naquela mesma conversa, pediu a permissão para se casar com Julieta. O pai, por sua vez, questionou se já havia perguntado para a filha. “Sou muito nova e não tenho nada”, respondeu a jovem de 18 anos.

 

Quando a mãe ficou sabendo da resposta da filha, disse que também se casou sem ter nada e, mesmo assim, viveu. Julieta, porém, tinha a resposta na ponta da língua: “Tenho que viver assim também?”, mas lhe custaria dois tapas bem na face.

 

Enquanto isso, os trabalhos continuavam no sítio. Após preparar a refeição dos porcos, Julieta terminou com os braços engordurados até os ombros. Pediu sabão à tia, mas já havia acabado. Precisou, então, recorrer à mãe, que mantinha os sabões guardados a sete chaves. Na porta de casa, a mãe veio furiosa com o sabão enrijecido nas mãos, aproximou-se da filha e esfregou-o com força sobre sua boca. “Aqui para lavar a tua fuça”, afirmava. Julieta virou-se, com o sangue escorrendo pelo queixo abaixo, e viu que Antonio observava a cena de longe.

 

Depois desse episódio, Antonio decidiu que não desistiria de Julieta, que acabou aceitando a proposta de casamento, motivada também pelo convívio com a família, que se tornava cada vez mais insustentável. Resolveram que, dali até o casamento, seria apenas o tempo de providenciar a documentação.

 

O pai deu a ordem de que todas as conversas deveriam ocorrer na frente dele ou da mãe de Julieta, quem, apesar de não querer mais o casamento da filha, dizia que, se não se casasse com Antonio, acabaria casando-se com outro pior.

 

Sem mais informações, Julieta recebeu a ordem de se arrumar para ir à cidade. No entanto, mãe e filha acabaram no cartório de Santos para encontrarem-se com o pai, o futuro marido e o futuro cunhado para dar entrada na documentação. Ao pisar no local, começou o escândalo: a mãe dizia que não permitiria o casamento.

 

Antes da cerimônia religiosa, era preciso fazer a reunião dos noivos com o padre. E lá foram os três: Julieta, Antonio e a irmã Fernanda, ainda criança, como acompanhante do casal. O padre, ao ver os jovens, disse que a reunião não era naquela hora, seria somente de noite. De imediato, Julieta afirmou: “Mas, senhor padre, os meus pais não vão me deixar sair de noite...”. Compadecendo-se da situação da jovem, o padre aceitou conversar naquele momento, sem cobrar taxa alguma, nem pela reunião, nem pelo casamento.

 

No dia seguinte, domingo, 02 de maio de 1959, casaram-se na igreja Santo Antônio do Valongo, na missa das 8 horas da manhã. A tempo da cerimônia, Antonio conseguiu comprar um vestido de segunda mão para sua noiva. Durante a missa, a mãe de Julieta teve uma última tentativa de impedir o casamento, declarando ser contra a união na frente de todos, inclusive do padre.

 

Julieta com seu noivo, Antonio Gomes da Silva, em 02 de maio de 1959.

 

Uma semana depois, em 09 de maio de 1959, Julieta e Antonio casaram-se no civil. O processo sofreu atrasos, agravados ainda pela recusa da mãe da moça em assinar os documentos. Nesse dia, Julieta da Encarnação dos Santos tornou-se Julieta da Encarnação da Silva, perdendo o sobrenome paterno para o do marido. Indignada, chegou a dizer que gostaria de manter os dois nomes, mas era como se não estivesse falando nada, pois ninguém a escutou.

 

Casamento civil de Julieta e Antonio, em 09 de maio de 1959.

 

Construindo uma família

 

Apesar de “não ter nada”, como a própria Julieta disse, os presentes de casamento vieram em fartura dos vizinhos e conhecidos. A patroa da irmã Alegria, por exemplo, foi a responsável por presentear com o tecido para o enxoval.

 

A primeira casa onde Julieta e Antonio moraram foi um pequeno imóvel alugado, com o banheiro dividido para três famílias. Ao lado da cama, podiam ver um buraco por onde os ratos circulavam. Dois meses depois, Antonio conseguiu comprar um chalé mais confortável para morarem, com quarto, cozinha e banheiro. Comprou de repente, sem contar à esposa.

 

Na época do casamento, Antonio, que chegara ao Brasil em 1953, vindo de São Vicente (Ilha da Madeira), já possuía uma barraca de frutas na feira da cidade. Julieta passou a cuidar da casa e trabalhar na feira, dividindo-se entre as duas tarefas. Assim, Julieta passou do inferno para o purgatório: apesar de ainda estar longe de ser perfeita, a vida melhorou; agora, não precisava mais se preocupar se haveria comida.

 

Não demorou muito para Julieta ficar grávida pela primeira vez. Contudo, em 15 de outubro daquele mesmo ano, no 30º aniversário de Antonio, a jovem sofreu um aborto espontâneo. No hospital, passou por uma série de médicos em treinamento, os quais faziam e refaziam os exames. Um deles acusou Julieta de ter sido a responsável pelo incidente.

 

Recuperada e de volta a casa, Julieta viu na vizinha, Dona Carmem, uma amiga e confidente. Quando não estava na feira, as duas tomavam o café da manhã juntas e, enquanto uma trabalhava em casa, a outra fazia supermercado ou açougue pelas duas. Depois, bordavam o máximo que podiam.

 

Tendo casado sem conhecerem um ao outro, a comunicação era escassa. Sempre muito seco, Antonio dizia que não seria mandado por mulher. Ao sinal do mínimo problema enfrentado pelo casal, o marido sumia sem dar notícias após o trabalho. Julieta, esperando o dia todo pela sua volta, não comia. Às vezes, ficava emburrado e era ele quem não queria comer. “Antonio, se tu não comes, também não como!”.

 

Em 1961, nasceu a primeira filha, Izilda Gomes da Silva. Logo depois, em 1962, veio Rosangela Gomes da Silva, cujo nome o casal não conseguia chegar a um acordo. Julieta havia escolhido Edina e foi para a maternidade acreditando que este seria o nome da filha. Contudo, Antonio, ao registrá-la, escolheu aquele que julgava mais bonito.

 

Família reunida para o casamento da irmã Alegria. No colo, Rosangela e, em pé, Izilda.

 

Em 1964, a família mudou-se para Vicente de Carvalho, distrito do Guarujá, cidade vizinha de Santos, na Baixada Santista. Lá, nasceram os outros dois filhos do casal: Lourdes Gomes da Silva, em 1964, e Marco Antonio Gomes da Silva, em 1969. Após o quarto filho, Julieta precisou fazer uma cirurgia que a impediu de engravidar novamente. Atônico, o médico não entendeu como quatro gestações foram possíveis.

 

Aqui e agora

 

Realizada, aos 84 anos, Julieta vive em Santos. Mora sozinha, em seu apartamento, próximo à praia. Perdeu o marido há poucos meses, depois de 65 anos de casamento. Passa o maior tempo possível se dedicando à sua paixão: o bordado. Preparar as comidas típicas da Ilha da Madeira e jogar baralho fazem parte de sua rotina com fidelidade.

 

Julieta fritando malassadas, comida típica do carnaval da Ilha da Madeira.

 

Os costumes e tradições sempre estiveram presentes na vida da família. Foram transmitidos para as gerações seguintes com muita paixão e orgulho. Ainda hoje, quem passa à porta pode escutar um fado, sentir o cheiro de malassadas recém fritas ou ouvir um sotaque bem português.

 

Hoje, em meu coração, ainda sinto muita saudade do lugar onde nasci. Detesto quem fala mal do Brasil, mas também de Portugal. Respeito muito os dois países – assim eduquei meus filhos e, agora, meus netos.

 

Julieta e Antonio em Santos, em 2019.

 
 
 

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